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O ultimo abraço que lhe dei

Hoje uma amiga partilhou um texto comovente de António Lobo Antunes “O ultimo abraço que te dou”, que recomendo a leitura e que me fez lembrar um amigo meu que nos deixou há anos.

Conheci-o como namorado da minha amiga Patrícia e sempre simpatizamos muito um com o outro. Era giro, gordinho (já explico porque escrevi isto), inteligente e tinha um sentido de humor fantástico. Era famoso por ser super bem disposto. Infelizmente o namoro dos dois não durou e começamos a encontrar-nos na Kapital com mais frequência e por acaso e acabámos por nos aproximar e tornarmo-nos amigos.

A Expo vi-a com ele. Divertimo-nos imenso em todos os pavilhões que visitámos, com as concertos que ouvimos, com as musicas que dançámos. Ainda cheguei ir a Troia passar o dia com ele e até levei a minha DM, que era a minha única menina na altura para andar de barco e foi um dia muito giro e bem passado.

Não sei porquê, mas afastamo-nos, daquelas coisas inexplicáveis. Eu e o Paulo nunca mais falámos ou trocámos mensagens, deve ter sido há mais de 11 anos por isso nem facebook havia, para estarmos com alguém era preciso mesmo ligar. Entretanto comecei a namorar com um rapaz. Tudo parecia estar a correr bem e ser a pessoa certa para mim, até começarem as discussões, as manipulações, os maus feitios, as cobranças, os berros, os choros, as azias, etc. A coisa lá foi se arrastando, até porque eu já estava completamente controlada pelo traste e até tinha medo de terminar com ele ou fazer o que quer que fosse. Acho que só mexia os olhos, respirava e abanava que sim com a cabeça. Foi uma experiência horrível, porque eu fiquei completamente descontrolada, os meus amigos afastaram-se todos de mim, a minha familia deixou-me quase de me falar em sinal de protesto e eu fui ficando cada vez mais sozinha e perturbada.

O ano foi passando e um dia fui ao BBC com o meu ex para fingir que nos divertiamo-nos. Ao chegar estávamos a colocar os casacos no bengaleiro e uma pessoa com os olhos enormes vem ter comigo batendo-me no braço e com um super sorriso rasgado.

– Olá!!! 🙂

– Olá….desculpa, eu sei que te conheço, mas não te estou a reconhecer.

– Sou eu o Paulo P.

– PAULOOOOOOOOO, que saudades o que é feito de ti, estás tão magrinho….bem que dieta fizeste nem te reconheci

– Não foi dieta, tive um cancro no pâncreas e estive 6 meses no hospital sem poder comer ou beber água. Mas agora estou bem 🙂

Engoli em seco, fiquei sem saber o que dizer, queria falar e a voz não saia. Acho que trocámos palavras através do olhar. Entretanto uma mão puxou-me à bruta pelo braço “Então vais deixar-me aqui com os casacos para falar com esse gajo”, tentei explicar o que se passava e quem era e o que me tinha contado, mas o anormal não quis saber, porque estava mais preocupada em não estar à minha espera e eu naquele momento não o estava a servir (omg contar esta história faz-me mal, relembrar esta pessoa e este período da minha vida custa-me muito e foi algo que nunca fiz antes aqui no blog)

A noite passou-se com muito sacrifício, não conseguia deixar de pensar no Paulo e no que me tinha contado e cada vez sentia-me pior ao pé do meu namorado (até me custa referi-lo como tal). No dia seguinte liguei ao Paulo e falámos um bocadinho e nos tempos seguintes ainda trocámos umas mensagens, mas nunca mais foi a mesma coisa.

Entretanto consegui libertar-me do meu ex. É o meu único rompimento que não me lembro de como foi. Apagou-se, não sei se fui eu ou ele. Lembro-me de ele andar atrás de mim depois e a querer ter as típicas recaídas, que algumas vezes tinham sucesso outras nem por isso. Mas eu já só me queria livrar dele, cada vez o odiava mais apesar de achar que não conseguia viver sem ele (tipo comportamento de quem é manipulado). Nessa altura já tinha começado a fazer psicoterapia e a minha médica, sabendo o perfil do sujeito ameaçou-me dizendo que não me recebia mais caso o voltasse a ver….mas lá vinha eu a dizer “desculpe não resisti”…e ela perdoava-me…até ao dia em que recebi a noticia no balneário do Holmes Place que o Paulo tinha falecido. Estão a ver aqueles episódios de Mundo Pequeno como um T0 ou uma ervilha. Uma rapariga ao meu lado comentava com as amigas sobre doença de um amigo e que tinha morrido naquele diz de cancro…chamava-se Paulo….eu virei a cara e disse “Paulo P”?! e ela, “sim?! conheces?” Comecei a chorar.

No dia seguinte fui ao velório e chorei por tudo. Os textos que escreveu para a família e os amigos sensibilizaram toda a gente. Foi lindo ao mesmo tempo que muito triste.

A caminho do enterro comecei a lembrar-me de tudo e principalmente do triste episódio do BBC com o meu ex. Fiquei com mais ódio do outro e agarrei no telefone e apaguei o seu número e desde esse dia que me libertei, que comecei a trabalhar em mim e no meu futuro. Agradeci de certa forma, em tom de reza ao Paulo por me ter ajudado e pedi-lhe muitas desculpas pela minha falta de força e cobardia no passado. Prometi mudar e que nunca mais ninguém haveria de transformar a minha cabeça e dizer com quem devo ou não devo falar ou como deve ser.

Hoje, graças ao texto do António Lobo Antunes, lembrei-me de ti Paulo e acho que merecias que te dedicasse um artigo no meu blog. Não fomos os melhores amigos do mundo, mas fomos companheiros de dança, de piadas, de passeios e sem duvida de momentos bons. Tenho saudades tuas e o mundo perdeu muito com a tua partida.

Dedico também este artigo a todas as pessoas que lutam contra o cancro, às suas famílias e amigos.

Uma injustiça que não se consegue explicar.

Beijinhos

Sofia