icon-arrowicon-facebookicon-googleplusicon-instagramicon-pinteresticon-playicon-searchicon-twittericon-youtube

O Direito ao Não!!!!

Ontem muita coisa se passou no nosso País! A revolta dos Taxis contra os transportes de passageiros alternativos como a Uber e a Cabify foi triste de se ver. Acredito que todos devemos lutar pelos nossos direitos, mas tem que haver limites e respeito. Que se debata pelo que é justo e concreto e evitar que as emoções nos façam perder a razão. E ontem os taxistas perderam toda da pouca razão que tinham.

Mas não era sobre isto que vos queria falar até porque sou passageira frequente e muito satisfeita da Cabify e espero continuar a ser durante muito tempo. O que gostava de partilhar convosco o que realmente, acima de tudo me incomodou ontem foram as declarações de um taxista em que afirma calmamente que “as leis são como as virgens devem ser violadas”.

Sempre que repito isto, fico uns minutos sem conseguir se quer pensar. Dá-me uma dor no peito e apetece-me chorar, espancar este homem.

Fui uma criança e uma adolescente que facilmente era assediada por homens mais velhos. Tive o azar de ter momentos muitos constrangedores com “velhos nojentos” (desculpem o termo, mas são pessoas que não respeito), que em eventos e festas acabavam, camuflados pela confusão da gente, do barulho e da música, sempre por tocar um bocadinho amais onde não deviam.

A educação que tinha e o medo de ser falar, deixava-me sempre calada e a sofrer em silêncio. Tinha tanta vergonha, fechava os olhos e pedia para acabar depressa ou que alguém aparecesse. Só vim a contar, muitos anos depois à minha mãe, porque em criança tinha medo, vergonha, sei lá….não era capaz.

Uma das coisas que aprendi a fazer na psicoterapia, muitos anos depois (aos 28), foi a dizer que NÃO!!! Coisa que já veio tarde e que infelizmente não me fez esquecer aqueles momentos do passado e que até hoje me acompanham. Há coisas que nos marcam e ficam para sempre, estas ficaram.

Mas eu fui 1, entre milhares de crianças, miúdas, adolescentes, jovens, mulheres cuja sua intimidade foi abusada e que foram obrigadas a fazer o que não queriam. Tenha sido por um desconhecido, amigo da família, conhecido, familiar, não interessa, o crime é igual e medonho e a sensação é horrível, porque não existe vontade, não existe prazer, não existe amor, não existe nada!!! O acto da violação começa a partir do momento em que se diz que NÃO, seja no beijo, no toque, na penetração….

Na minha história nunca chegou ao ponto de final, ficou-se tudo pelos toques, as tentativas de beijos, mas infelizmente milhares, milhões de mulheres não tiveram a mesma sorte que eu. O seu NÃO foi negado e o seu corpo usado pelo prazer de um monstro que colocou o seu desejo em frente da vontade da outra pessoa.

Infelizmente hoje, tão evoluídos que somos, ainda continua haver homens que acham que as mulheres devem servi-los e que servem apenas para seres usadas e abusadas quando eles quiserem, continuam a ser vistas e tratadas como um objectos de prazer.

Há muitos anos jurei a mim mesma que mais nenhum homem iria tocar-me sem eu querer. Posso até morrer a lutar pelo meu corpo, mas a minha dignidade ficará eternamente viva.

Meninas, Mulheres não se calem, não permitam, não tenham medo. Peçam ajuda, falem com as vossas mães, amigas, professoras, colegas, médicos, autoridade, associações o que for, mas não escondam e não vivam com a culpa dentro de vocês. Vocês não merecem, ao contrário do que vos fazem sentir. Lutem pelos vossos direitos, pelo NÃO, pelo vosso Corpo, da vossa Alma e da vossa História. Não permitam que vos destruam os sonhos!

Quanto aos monstros que abusam da sua força, autoridade, virilidade para ter uma mulher deviam ser no mínimo presos.

Este texto é dedicado a todas as pessoas que passaram por situações como estas, como as bem piores e como as que perderam a vida.

Lamentável as declarações e comparações feitas ontem por um homem que devia no mínimo ser proibido de voltar a conduzir um transporte publico.

Beijinhos e força

Sofia