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O Carpinteiro das Almas

Com os remos dentro de água passeio-me por um rio escuro e denso de almas perdidas e magoadas.

A barca de madeira fura as pequenas ondas de água límpida e tranquila, suavemente temperada pelas lágrimas e mágoas dos seus naufrago e ao som das estrelas surge a luz moribunda da dor e da agonia de quem um dia deixou-se escorregar pela margem de lama.

À medida que a noite avança, recolho os corpos sem brilho que flutuam sem rumo certo pela correnteza. Sento-os no pequeno banco da proa e de costas para a margem atiro-lhes para o rosto a suave brisa do Norte e ao nos aproximarmos da terra deixo-os sentir o cheiro da mesma molhada e da lamaçal que nos espera.

Nos braços inocentes e por entre cobras viscosas e sanguessuga esfomeadas, carrego o peso morto de alguém que um dia foi gente e que agora se esconde por entre limos e algas imundas prontas a se enraizarem.

Durante semanas, na minha oficina, lixo-lhe as más recordações, corto-lhe os males, lavo-lhes o rosto, esfrio-lhes a febre, arranco as daninhas que vão crescendo dolorosamente debaixo das unhas, lambo-lhe as resinas que escorrem das feridas e como soro passo-lhes a minha energia.

Que nem Gepeto trato das almas dos outrora duros, maciços e destemidos humanos de como crias se tratassem. Carrego-os no colo comigo e mostro-lhes a intensidade do sol, cantamos à lua, dançamos na brisa, saltamos desejos, e corremos nos sonhos. Os inquebráveis bonecos mantêm-se sentados sobre a minha tosca bancada, no meio das suas farpas, dos meus pedaços do passado, das minhas mais dolorosas recordações e das minhas fortes e limadas ferramentas que desbastam-nos à procura da vitória. Aguardamos o dia em que voltem a sentir-se gente.

Sei que sou sou uma passagem, um momento, uma ponte. Não passo de um caminho de uma miragem fraca de Gil Vicente que se passeia por entre almas perdidas num pântano de gente. Longe do inferno mas perto do Auto, encontro almas partidas e transformo-as em força. E à medida que me afasto das margem, entre lágrimas de saudades, vou-me conformando com a solidão e aprender a esquecer e a viver apenas das recordação e dos bons momentos.

E se o cavalo me derruba, deixo que o burro me console, mas continuo sempre a galopar sozinha até à linha do por-do-sol.

Sofia