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O texto que faltava

No Ano passado decidi por esta mesma altura fazer parte da CASA – Centro de Apoio ao sem Abrigo. Passei o 1º dia a ajudar na cozinha e numa 3ª feira, por volta desta data fiz a distribuição dos alimentos pelos mesmos.

Gostava de ter escrito sobre as 2 situações, mas só consegui escrever sobre a experiência da cozinha. Tal como toda a gente que participa na distribuição diz “é difícil explicar o que se sente….é diferente”. Sim foi tão diferente que nunca consegui palavras suficientes para contar como foi.

Este ano voltei e ao contrário de todos os meus amigos que não foram capazes de me acompanhar, disseram e elogiaram-me o feito e deixo a explicar: “eu não sou grande nem o que faço é nada de especial perante o que milhares de pessoa fazem durante todo o ano. Eu venho uma vez aqui e outra sabe-se lá quando. A minha vida ocupada e as desculpas acabam sempre por estar à frente de tudo. E o que para uns parece um acto maravilhoso de coragem eu chego a ter alguma vergonha, confesso. O verdadeiro voluntário é aquele que se dedica, eu apenas sou uma porta aberta para o Mundo e quero que através dos meus olhos e das minhas palavras outras conheçam uma realidade que diariamente e facilmente viramos as costas e a cara.

Ao contrário do que seria normal, numa noite como esta, a comida quente pela CASA e todos que a apoiam (como o Pingo Doce e El Corte Inglês) está garantida, assim como a sopa, chá quente, pão fruta, bolos…o que houver. O que nós fazemos é ir distribuir por cada Sem Abrigo de diferentes zonas (Av da liberdade, Cais do Sodre, Gare do Oriente e Martim Moniz) uma refeição quente e calorosa.

Bem chega a altura em que me começo a atrapalhar-me com a informação que tenho e os sentimentos ainda demasiado vivos na minha cabeça e no meu peito. Depois de uma noite como estas é normal ficarmos baralhados e deixar de ter um fio condutor. Ninguém vai dizer que não é duro, porque é. É duro ver a miséria a que algumas pessoas chegaram, É duro ver pessoas como nós a dormir na rua, É duro ver a cumplicidade que alguns têm e a forma como se apoiam. É duro ver a forma como a sociedade virou-lhes as costas, É duro ver pessoas a viverem em zonas que passamos todos dias e que nem damos conta que estão lá. É duro não ver as mesmas caras do ano passado e começar a pensar, será que conseguiram melhorar de vida?! É duro ouvir desejar Feliz Natal e ficar sem saber o que dizer de volta, É duro ouvir histórias de pessoas que tiveram tudo, É duro sentir que há quem tenha família e a mesma não quer saber da situação em que estão, É duro saber que muitos deles tomaram caminhos errados como do álcool, do jogo, da droga e que isso acabou com tudo, É duro saber que a noite está gelada e que hoje vão lá estar todos novamente e quem sabe quem mais alguem, É duro imaginar que ninguém está livre deste infortúnio….eu, tu, ele, nós….espero mesmo que não.

Mas se há coisa que eu sou realmente abençoada é na forma como Deus coloca as pessoas no meu caminho. De tanta tralha de gente maldosa e sem valores, eu tenho tido muita sorte pelas pessoas maravilhosas e enormes que eu vou conhecendo. Pessoas essas que me ensinam tanto a ser uma pessoa melhor, como uma pessoa do Mundo. Foi o caso de um rapazito de vintes e pouco anos, com alguma atitude e muita confiança chamado De La Vega. Quem olha para ele não consegue ter noção no tamanho do seu coração. Um cantor que por mais palavras que componha e que cante não vai conseguir nunca demonstrar aquilo que ele é na realidade. Ele é enorme!!!! Simples!!!! Caloroso!!!! Único!!! Especial!!! (se comprarem as suas musicas 1€ reverte a favor da CASA)

Conhecemo-nos no ano passado quando ele ficou a liderar a minha volta. Com ele não distribuímos apenas comida, oferecemos Tempo, Abraços, Apertos de mãos, Beijos, uma palavra amiga, Sorrisos, Conversamos, Perguntamos, Ouvimos, Sabemos os Nomes, Ouvimos Histórias, Damos e Recebemos imenso!!! Aprendemos a não dar a volta, a não virar os olhos nem a cara, aprendemos a olhar nos olhos a sentarmos ao lado de quem vagueia pela rua e a sermos iguais.

No fundo somos todos iguais, apesar de uns terem mais do que outros somos todos feitos de genes, heranças, histórias, um passado, um presente, um futuro que ninguém que conhece, de medos, de receios, de ambições, de sonhos, de frio, de calor, de saudades, de fome, de desejoso e de esperança….

Nunca mais vou esquecer o Sr. Freitas com uns lindos e enormes olhos azuis atrás de uns óculos, cheio de mantas pousadas nas costas, com uma perna inchada, e a deliciar-se com o chá quente que lhe demos e a fazer-nos queixas das suas irmãs com um sorriso, enquanto brincava com o seu fiel amigo e companheiro Manuel, um homem que que deve ter sido um galã, com uma conversa gira, muito charmoso e que a vida sabe-se lá porquê o fez deixar ali. Ou a elegantíssima brasileira, de perna cruzada, com gestos delicados e tom muito educado que com olhos no chão recusou as nossas oferendas. Ou do Senhor Pastor, muito bem falante que em tempos tinha tido uma fábrica de jacuzzis na África do Sul e que nos que contava a trágica história da sua família antes de se deitar na pedra fria da Gare do Oriente.

Enfim uma noite dura, que deixa marcas boas e uma vontade enorme de repetir e de voltar a fazer tudo novamente.

Ao grupo que me acompanhou, Ana Coelho, Andreia, Mafalda, Alexandra, De La Vega, Diogo, Bento, António e Hugo só tenho que agradecer a forma como vieram de coração aberto e se dedicaram com tanto carinho a fazer a noite dos Sem Abrigo uma noite diferente. Amei ter partilhado isto convosco, assim como os risos a boa disposição, a indignação e a dor. Foi mágico para todos nós e espero que tenha sido por todos aqueles por quem passámos.

Beijinhos cheios de amor

Sofia